29/02/2012

Conhecimentos técnicos

A minha experiência com animação antes de iniciar a produção de Paralaxe consistia em: exercícios de desenho animado, experimentações de stopmotion e brinquedos óticos  e um pequeno curta produzido em grupo, todos durante o curso de Artes Visuais.


Não havia ainda animado personagens diretamente no computador. Todo o conhecimento relativo às ferramentas para animação e edição foi adquirido durante a produção de Paralaxe, às vezes até em caráter emergencial. Isso porque, sem conhecer as características procedimentais da técnica "recorte digital", não consegui prever algumas manobras necessárias para o fluxo de trabalho seguir tranquilamente. Felizmente, em momentos tensos como esses, pude contar com a ajuda de animadores próximos, dispostos a me ajudarem e com uma paciência indescritível! rs 


Quando eu estava com o animático definido e iniciando a produção dos cenários, a Marilia Poggiali me apresentou o processo de produção de seu filme, Cortejo, animado na técnica que eu pretendia e finalizado há alguns meses. Uma consultoria (vip!), que me ajudou a entender o funcionamento e recursos para as camadas dos personagens, as limitações técnicas dos movimentos, a relação disso com os cenários e as atuações, possibilidade de o projeto exigir adaptações, organização do material e outras coisas mais. Enfim, informações valiosas para essa e outras técnicas, mas essenciais para planejar os layouts e animar.


Depois de ter todos os recortes e cenários organizados, foi a vez de tomar mais algumas aulas com o Gabriel Brandão, que me ajudou a compreender e a tocar o funcionamento dos programas de animação, composição e edição. Consultorias valiosíssimas e aliviantes, em situações completamente incógnitas. Ele também me deu uma força na pós produção.


Diversas vezes, a dificuldade em lidar com tantos programas e ferramentas desconhecidas, tornou o processo muito próximo do doloroso. Por mais que eu pudesse contar com a ajuda de pessoas próximas, a maior parte do filme foi feita por mim, completa iniciante em relação a essas tecnologias. E, não tem jeito, meu raciocínio é analógico! rsrs Por mais que eu quisesse alcançar um alto nível de excelência neste trabalho, estaria constantemente limitada por não garantir o alcance deste objetivo em todas as fases da produção do curta. Após cada dura etapa concluída, senti claramente onde estavam minhas reais aptidões dentro do "fazer animação", e onde eu, definitivamente, não tinha competência dentro do processo. Por essas e outras é que Cinema precisa ser feito coletivamente. 
   

17/02/2012

Ideias coincidentes [ 1 ]

"Rotineiramente desqualificamos testemunhos e exigimos comprovação. Isto é, estamos tão convencidos da justeza de nosso julgamento que invalidamos provas que não se ajustem a ele. Nada que mereça ser chamado de verdade pode ser alcançado por esses meios."

Marylinne Robinson, The Death of Adam

12/09/2011

Técnica para animar

Desde o início do projeto, a fotografia serviu como um guia para o conceito e, talvez por isso, o stop-motion aparentou ser a técnica mais adequada para animar as cenas. De imediato, pensei em construir maquetes cenográficas e bonecos tridimensionais articulados. Mas, devido ao fato de os personagens terem sido construídos a partir de conceitos sobre a sua forma de ver [confira aqui], pareceu-me importante pensar bem em como o espectador os veria. Para isso, levantei outras possibilidades técnicas, além do stop-motion.

Para manter a idéia de cenários tridimensionais e personagens bidimensionais, as soluções técnicas que eu visualizei para animação foram:

1) stop-motion com personagens em recortes de papel animados diretamente sobre as maquetes;


2) esse mesmo tipo de recorte animado em stop-motion sobre fotografias dos cenários;

3) animação 2D tradicional dos personagens, aplicados posteriormente sobre fotografias das maquetes;

4) 3D digital simulando profundidade nos cenários e bidimensionalidade nos personagens;

5) animação de recortes digitais dos personagens, sobre fotografias dos cenários construídos (maquetes).

Das cinco alternativas, optei pelo recorte digital (nº5), devido a um conjunto de fatores. Entre eles, o fato de a visualidade poder ser completamente composta por fotografias (do cenário aos personagens), o que pareceu complementar o conceito do filme. Além disso, era a técnica que eu poderia garantir boa parte da habilidade e dos conhecimentos técnicos necessários. Por último, mas não menos importante, o recorte digital foi uma boa opção por conter maior número de etapas possíveis de ser executadas dentro do prazo estipulado para a conclusão do projeto.

Cenário com marcação da escala para os personagens digitais:


Montagem básica dos personagens:
MICRO

TELE

Visualidade do filme

As técnicas que escolhi para a construção da visualidade do filme e, consequentemente para a animação, estão diretamente relacionadas com as características psicológicas atribuídas aos personagens. Eles possuem uma visão unilateral da realidade e são rasos de caráter; por isso foram representados bidimensionalmente, assim como os objetos cenográficos relacionados a eles. O ambientente em que estão inseridos, por sua vez, foi criado tridimensionalmente, pensando em como os ambientes do mundo real oferecem, de fato, múltiplas possibilidades de interpretação.




Primeira versão do roteiro

O argumento inicial consistia em explorar a diferença de pontos de vista entre dois seres. Portanto, as tentativas de roteiro giraram em torno de possíveis conflitos entre os personagens. Pensei em conflitos étnicos, religiosos, políticos, entre classes sociais e até mesmo entre gerações distintas. Houve uma tentativa inicial que tendia à ordem política, com três personagens que precisariam definir um objeto para uma plateia. O conflito principal da trama se daria quando eles se deparassem com descrições completamente distintas e precisassem chegar a um consenso.

Na escrita desta primeira versão de roteiro, pude contar com a contribuição de Gabriel Brandão e Filipe C. Storck. Eles me ajudaram a compreender melhor o a construção do ritmo do filme e juntos pensamos num desfecho muito bacana.

(Um dia ainda vou fazer uma história só para ter um plano final bonito como esse, meninos!)

Infelizmente essa proposta foi descartada por exigir, entre outras coisas, uma produção maior do que a possível de ser feita durante o tempo do curso. Apesar disso, o conceito básico se sustentou e foi necessário "apenas" reformular a configuração da história. Personagens flexíveis, contexto adaptável.

Universo da trama

Mais do que decidir o número de figuras atuantes ou o próprio roteiro, num primeiro momento foi necessário pautar o funcionamento do universo da trama. Para isso, fiz uma pesquisa sobre os elementos óticos e fotográficos poderiam dar suporte à ideia inicial. E, dentro do assunto estabelecido, surgiram situações que poderiam ser representadas pelos personagens.




05/06/2011

Principais referências

Para o desenvolvimento do conceito, do roteiro e da visualidade do filme, as referências foram bastante pontuais. A maior parte dos caminhos escolhidos estava em ressonância com alguma obra vista anteriormente.


Duas produções cinematográficas foram referências para a integração entre elementos bi e tridimensionais. São elas:

Viagem à lua (Le voyage dans la lune),
de Georges Méliès. França, 1901.


A invenção diabólica (Vynález zkázy),
de Karel Zeman. Tchecoslováquia, 1958.





A idéia de trabalhar o conceito de verdade/realidade a partir da fotografia trouxe alguns estudos teóricos do meio. Entre eles, Susan Sontag, em Ensaios sobre a fotografia:
"[...] a fotografia implica acesso instantâneo à realidade.
Mas os resultados dessa prática de acesso instantâneo
constituem outra forma de criar distanciamento.
Possuir o mundo em forma de imagens é, precisamente,
reexperimentar o quão irreal e remota é a realidade."
(SONTAG, 1981, p.157)





A visualidade da "verdade" foi inspirada no trabalho fotográfico dos artistas David Hockney e Christine Burrill, onde a imagem apresentada é composta por diversos fragmentos de pontos de vista:
David Hockney

Dawn - Christine Burrill