06/03/2012

Personagens [ 3 ]

Recomendo a leitura das postagens Personagens - parte 1 e Personagens - parte 2 antes desta.

Após longos e produtivos 10 dias no estúdio, fazendo as fotos dos personagens, imaginei que havia finalmente chegado a hora de recortar. Que nada! Antes disso, como não poderia deixar de ser, foi necessário organizar todas as peças. E o trabalho fluiu mais ou menos da seguinte forma:

1) Backup de todas as fotos feitas, inclusive os testes, em pastas nomeadas pela data de captura;

2) separação das peças do personagem MICRO e do personagem TELE em pastas diferentes;

3) separação de cada parte "animável" de cada personagem em pastas (pescoço, cabeça, chapéu...);

4) organização e renomeação de cada peça na ordem de giro correspondente ao ângulo de captura;

5) com as poses todas renomeadas e em seus devidos lugares, novo backup;

6) recorte de cada parte do personagem = eliminação do fundo, arquivo salvo em PNG;

7) eliminação do reflexo verde sobre as superfícies, herdado do chroma key;

8) tratamento necessário em algumas partes (cabeças, principalmente);

9) definição do lugar ocupado pela pasta principal de cada personagem, de onde seriam lidas as imagens pelos softwares [[[SUPER importante]]]

10) backup das partes prontas para animar.



No fim das contas, foram recortadas mais de 200 peças para compor os dois personagens. Ainda foi necessário recortar as fotos que serviram de falas, a máscara das que estavam no quadro, os diplomas que foram arremessados e partes do cenário que precisaram se desmembrar do seu plano original, como o telescópio e o microscópio, para a composição de algumas cenas. Depois dessa maratona, sentindo-me expert em ferramentas de recorte digital (algumas até que eu nem sabia que existiam), passei para uma fase de recorte: o dos objetos que iriam compor o cenário. Dessa vez, com tesoura e estilete de verdade. Vou escrever sobre isso depois, nas postagens sobre a cenografia.

05/03/2012

Roteiro definitivo e pré-visualização

Recomendo ler a postagem Primeira versão do roteiro antes desta.

A pré-produção já estava bastante avançada quando percebi que não haveria tempo hábil para a produção da história do jeito que estava sendo proposta. Adrenalina é pouco para caracterizar o que foram as duas semanas de tentativa de criação de um novo roteiro. Criar sobre a pressão de um prazo não é a circunstância mais agradável, mas é muito utópico também acreditar que é uma equação insolucionável.

Procurei o Gabriel Brandão para me ajudar nessa empreitada. Procuramos conversar informalmente sobre as possibilidades, fazer um brain storm para conferir onde mais o conceito básico poderia se encaixar. Eis que no meio de uma conversa, durante um almoço, tivemos a idéia dos pesquisadores, diplomas, fotos, quadro com a palavra. E tudo se encaixou. Em casa, escrevemos um roteiro esquemático com as principais sequências e partimos para a pré-visualização.

Na versão anterior, eu havia escrito o roteiro, desenhado o storyboard, editado o animático e até preparado um pitching para apresentar em sala, no ateliê 2. Para essa nova versão, não dispunhamos de tanto tempo e partimos do roteiro direto para o animático, testando o timing dos planos e conferindo o grau de complexidade das cenas. O Gabriel se dispôs a modelar um protótipo dos personagens e do cenário em 3D para agilizar esse processo e assim construímos a primeira versão do animático de Paralaxe:


Isso me fez ganhar muito tempo na pré-visualização do filme, mas estranhei bastante a performance dos personagens com recorte por ter me acostumado com algumas atuações no 3D. Além disso, não foi possível transpor toda a previsão do animático (como o primeiro movimento de câmera idealizado) em função da limitação técnica do recorte. Em contrapartida, a técnica final atendeu às necessidades conceituais do filme e deu um ritmo ao movimento dos personagens que superou as expectativas.

Em Personagens - parte 2 há mais algumas informações sobre essa diferença entre as técnicas.


OBS.: a música utilizada no animático é o tango Caminito, de Juan de Dios Filiberto, e foi utilizada na produção do curta somente como referência, na etapa de pré-visualização.



Personagens [ 2 ]

Recomendo ler as postagens Conhecimentos técnicos e Técnica para animar antes desta.

Uma vez definido que a técnica para animação seria o recorte digital e que os personagens seriam construídos como uma espécie de colagem (fotografias de objetos distintos), comecei a pensar em um método de captura dessas imagens e organização do material que seria necessário.

A informação que eu tinha sobre esta técnica até então era de que, para animar, eu deveria ter a postos uma "biblioteca" de poses variadas dos membros que compunham um personagem, de modo que ele pudesse executar os movimentos mais livremente. A troca de poses de um mesmo membro (como para fazer a cabeça girar de um lado para o outro) chama-se replacement. E consiste em substituir poses em sequência para causar a ilusão do movimento. Na verdade é possível animar recortes sem utilizar o replacement, não é uma regra. O resultado, porém, é bem diferente. Optei por utilizá-o porque os personagens não teriam expressões faciais e a linguagem corporal seria extremamente importante para compor as atuações, portanto, quanto mais fluidas fossem, melhor.

Os personagens foram compostos por 5 partes móveis: cabeça, chapéu, pescoço, tronco e tripé (confira aqui). Foi preciso analisar muitas vezes o animático para identificar quais posições de cada uma dessas partes seriam necessárias para compor os movimentos esperados, ou pelo menos a maior parte deles. Dessa forma, percebi que a maior parte das poses se dava em ângulos em torno do eixo vertical, o que facilitou bastante as coisas. Elaborei um método para marcar as poses, de modo que cada ângulo fosse coincidente entre os elementos. Como eram objetos distintos e desproporcionais entre si, essa organização foi bastante útil. Posteriormente, foi necessário apenas colocar cada peça na escala devida.

De um modo geral, o esquema de registro das poses funcionou muito bem. Vale a pena um comentário a respeito da cor utilizada no fundo da foto. A escolha foi bastante empírica.  Sem conhecimentos específicos de como iluminar bem o set para esta situação, acabei criando um reflexo verde na superfícies dos objetos que, infelizmente, só percebi na fase de tratamento e recorte das fotos. Retirá-lo foi um trabalho a mais. Foram muitos os detalhes para eu me concentrar no momento de fazer as fotos, que este acabou passando despercebido. Acredito que um fundo mais neutro, com a iluminação utilizada da mesma forma, dispensaria o tratamento de cor e não comprometeria tanto o recorte.

Apenas uma pose de cabeça e objetiva precisou ser refeita. A necessidade de repetir a foto só foi notada depois que a foto do cenário já estava pronta e eu já havia terminado as atividades no estúdio. Foi um desafio refazer este registro fora do estúdio, sem as marcações originais e ter que acertar o ângulo e a luz para que não destoasse tanto da perspectiva e da luz da cena. No fim das contas, acho que funcionou bem porque aparece por um rápido momento. Eis o registro do processo:

Essa foi uma das situações que a Marília Poggiali já havia me alertado quando conversamos sobre a produção do filme dela: depois que os backgrounds de cada cena estavam definidos, seria possível constatar limitações de movimentos imprevistas para os personagens e, talvez fosse preciso adaptar a atuação. Dito e feito. Esse aí é apenas um exemplo das adaptações que foram necessárias.

Por último, mas não menos importante, devo dizer que planejar um personagem em desenho, pré-visualizar a sua atuação em 3d e configurá-lo definitivamente em recorte de fotografias, causou uma certa estranheza em sua aparência. Um pouco frustrante até, porque cada técnica possui uma força expressiva intrínseca e seria impossível (neste caso) transpor detalhes de uma para a outra.  Ao final da montagem do personagem, confesso que não me atraiu muito o novo visual, principalmente do personagem Micro. Foi durante a fase de tratamento dos cenários que eu tive tempo de deixar passar a "depressão pós-parto" e ver que eles tinham a ver com aquele ambiente - que também acompanhou as mudanças de técnica.

01/03/2012

Personagens [ 1 ]

Recomendo ler as postagens Visualidade do filme e Técnica para animar antes desta.

Os personagens de Paralaxe foram desenvolvidos durante a escrita da primeira versão do roteiro. Mesmo a trama original tendo tomado outro rumo, as características básicas deles foram mantidas. O Gabriel Brandão trabahou comigo na etapa de elaboração da visualidade dos personagens. Fizemos vários estudos em desenho e algumas colagens.








29/02/2012

Conhecimentos técnicos

A minha experiência com animação antes de iniciar a produção de Paralaxe consistia em: exercícios de desenho animado, experimentações de stopmotion e brinquedos óticos  e um pequeno curta produzido em grupo, todos durante o curso de Artes Visuais.


Não havia ainda animado personagens diretamente no computador. Todo o conhecimento relativo às ferramentas para animação e edição foi adquirido durante a produção de Paralaxe, às vezes até em caráter emergencial. Isso porque, sem conhecer as características procedimentais da técnica "recorte digital", não consegui prever algumas manobras necessárias para o fluxo de trabalho seguir tranquilamente. Felizmente, em momentos tensos como esses, pude contar com a ajuda de animadores próximos, dispostos a me ajudarem e com uma paciência indescritível! rs 


Quando eu estava com o animático definido e iniciando a produção dos cenários, a Marilia Poggiali me apresentou o processo de produção de seu filme, Cortejo, animado na técnica que eu pretendia e finalizado há alguns meses. Uma consultoria (vip!), que me ajudou a entender o funcionamento e recursos para as camadas dos personagens, as limitações técnicas dos movimentos, a relação disso com os cenários e as atuações, possibilidade de o projeto exigir adaptações, organização do material e outras coisas mais. Enfim, informações valiosas para essa e outras técnicas, mas essenciais para planejar os layouts e animar.


Depois de ter todos os recortes e cenários organizados, foi a vez de tomar mais algumas aulas com o Gabriel Brandão, que me ajudou a compreender e a tocar o funcionamento dos programas de animação, composição e edição. Consultorias valiosíssimas e aliviantes, em situações completamente incógnitas. Ele também me deu uma força na pós produção.


Diversas vezes, a dificuldade em lidar com tantos programas e ferramentas desconhecidas, tornou o processo muito próximo do doloroso. Por mais que eu pudesse contar com a ajuda de pessoas próximas, a maior parte do filme foi feita por mim, completa iniciante em relação a essas tecnologias. E, não tem jeito, meu raciocínio é analógico! rsrs Por mais que eu quisesse alcançar um alto nível de excelência neste trabalho, estaria constantemente limitada por não garantir o alcance deste objetivo em todas as fases da produção do curta. Após cada dura etapa concluída, senti claramente onde estavam minhas reais aptidões dentro do "fazer animação", e onde eu, definitivamente, não tinha competência dentro do processo. Por essas e outras é que Cinema precisa ser feito coletivamente. 
   

17/02/2012

Ideias coincidentes [ 1 ]

"Rotineiramente desqualificamos testemunhos e exigimos comprovação. Isto é, estamos tão convencidos da justeza de nosso julgamento que invalidamos provas que não se ajustem a ele. Nada que mereça ser chamado de verdade pode ser alcançado por esses meios."

Marylinne Robinson, The Death of Adam

12/09/2011

Técnica para animar

Desde o início do projeto, a fotografia serviu como um guia para o conceito e, talvez por isso, o stop-motion aparentou ser a técnica mais adequada para animar as cenas. De imediato, pensei em construir maquetes cenográficas e bonecos tridimensionais articulados. Mas, devido ao fato de os personagens terem sido construídos a partir de conceitos sobre a sua forma de ver [confira aqui], pareceu-me importante pensar bem em como o espectador os veria. Para isso, levantei outras possibilidades técnicas, além do stop-motion.

Para manter a idéia de cenários tridimensionais e personagens bidimensionais, as soluções técnicas que eu visualizei para animação foram:

1) stop-motion com personagens em recortes de papel animados diretamente sobre as maquetes;


2) esse mesmo tipo de recorte animado em stop-motion sobre fotografias dos cenários;

3) animação 2D tradicional dos personagens, aplicados posteriormente sobre fotografias das maquetes;

4) 3D digital simulando profundidade nos cenários e bidimensionalidade nos personagens;

5) animação de recortes digitais dos personagens, sobre fotografias dos cenários construídos (maquetes).

Das cinco alternativas, optei pelo recorte digital (nº5), devido a um conjunto de fatores. Entre eles, o fato de a visualidade poder ser completamente composta por fotografias (do cenário aos personagens), o que pareceu complementar o conceito do filme. Além disso, era a técnica que eu poderia garantir boa parte da habilidade e dos conhecimentos técnicos necessários. Por último, mas não menos importante, o recorte digital foi uma boa opção por conter maior número de etapas possíveis de ser executadas dentro do prazo estipulado para a conclusão do projeto.

Cenário com marcação da escala para os personagens digitais:


Montagem básica dos personagens:
MICRO

TELE